Mergulhado na necessidade de se agradar, mirava-se todos os dias ao espelho. A imagem reflectida, num diálogo entredentes, projectava um sorriso translúcido e feliz. O corpo mudara. A voz, mais aguda, ecoava sons estridentes que iam e vinham entre paredes de quarto. Anómalas as sensações, despiam-no de preocupações. Ali passava os seus dias. Serões entre o nascer o pôr-do-sol. Inquietudes que vacilavam à beira do seu pensamento. Queria entoar canções de amor, dançar e rodopiar perante aquele espelho de alma. Falava do nada, como se do mundo inteiro se refugiasse. Agarrado à cadeira, tornava-se a mirar, gostava do encanto. Imaginava palcos e cantava. Vestia-se de borboleta e fingia voar, entoando letras de mimar. Guardado entre medos e vibrações, refugiava-se num mundo só seu. Entre espelho, cadeira, toucador e uma cama de cabeceira larga, vivia contos de fadas, ensaios inventados, representações sem palco.
Tell@
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