11.3.10

Infância perdida...

Hoje, como em tantos outros dias, voltei a rever o mesmo rosto, triste e vazio. De corpo franzino, pele branca e cabelo curto, aquele rapazinho de olho castanho, seduz-me a alma sempre que me procura. Neste vazio que nos separa, aquecem-se palavras mudas, trocam-se olhares de entendimento. De mãos nos bolsos e cabeça baixa, vai-se aproximando de mim. deixa-se ficar sem que seja preciso haver diálogo entre nós. Segredo-lhe um simples olá e faço deslizar a minha mão pela sua cabeça. Já nos conhecemos de outros momentos, onde, sem segredo, nos defendemos de terceiros. Encolhido entre ombros, ofereço-lhe alguns minutos junto ao aquecedor. Sorri a medo e senta-se no sofá que transportou para junto do mesmo. É uma criança despida de carinho, empurrada pela certeza de que o tempo nao para e a vida emerge. Pergunto-lhe pelo pequeno almoço e, em tom baixo, descreve-me o copo de leite que havia em cima da mesa da cozinha. O pão chagaria mais tarde, depois de sua mãe se levantar, muito mais tarde que ele. Ela era doente e estava sem trabalhar há muito tempo. Não existia pai. Tinha abandonado o lar ainda ele nao tinha nascido. Coisas da vida que na sua cabeça ainda nao fazia sentido. Depois de aconchegado, saímos os dois e dirigimo-nos ao bar da escola. Um ritual que já se repete há algum tempo. Um ritual desconhecido para todos quantos nos rodeiam. O João é apenas mais uma criança que tenta sobreviver no seu dia-a-dia, longe da alegria da vida, das gargalhadas contagiantes, das brincadeiras simples... que deus o abençe e lhe traga melhores dias.
Tell@

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