Mal dormida. Um acordar tardio. Um dia vivido à beira de um ataque de nervos. Nem fumo nem fogo, num dia em que o caos se apoderou de mim. Valerá a pena o esforço? Começo a pensar que não. Definitivamente, não. Uma manhã recheada de jovens famintos por desacato. Entram e saem, ligeiros e nada incomodados. Sobretudo quando desnudados pela verdade dos factos. Reivindicam inocência, mas o olhar nega-a. Respondem agressivamente aos professores, mentem e riem das nossas abordagens. Sossego numa aula é chão que deu uva. Há muito que não é sentido. São formas de estar diferentes, inibidoras. Não há regra, conteúdo ou princípio que resista a tanta investida. Na primeira aula do dia, depois de alterada a disposição da sala (mais uma vez), eis que são surpreendidos com uma mudança de lugar. Entre dentes refilam e balbuciam palavras de desagrado. Atiram com os dossiês em sinal de reprovação. O tempo urge, as vozes calam-se por momentos e a minha invade aquela sala. Ouvem indignados, contudo arfando e rezando baixinho. Nem o espelho reflecte a sua alma. Nem o espelho os faz parar e pensar. Frágeis emocionalmente, deixam transparecer o quanto precisam de ajuda neste processo de mudança. Um apelo aqui, outro acolá. Cansados mas não vencidos, eis que recomeçam a trabalhar. Urge preencher uma ficha de autoavaliação do comportamento. Parar e reflectir. Autoreflectir. Durante a tarde, a aula correu de forma satisfatória. Trabalharam e concluíram a tarefa proposta. Percorri quilómetros na sala para que não se levantassem e incomodassem os outros, como é hábito. No final da mesma, mais uma situação de desacato entre alunos, uma professora e a Direcção da escola para resolver. Ouvido o Delegado de Turma e lidos vários depoimentos, conseguimos entender o que se tinha passado numa aula da manha. Telemóveis usados de forma abusiva. Mais um telefonema para casa. Aluno e Encarregada de Educação, reunidos comigo e a Direcção ao final da tarde. Quatro pessoas, tentando chegar a um entendimento. Um aluno problemático, doente emocional e psicologicamente, num discurso de completo desinteresse pelo seu futuro. Um filho e uma mãe que se agrediam em palavras e ameaças. Um jovem perturbado, que se controlava para não chorar. Fragilizado e zangado com a vida. Uma mãe anulada e frustrada. Cansada de (sobre)viver e de sofrer. Cansada de lutar e não ter nada. De mão vazia mas tom na voz, gritando com todas as suas forças. Várias promessas e comprometimentos. Mais um voto de confiança.
Hoje, num dia em que se comemorava o aniversário de Mozart com actividades muito interessantes, nem da minha sala consegui sair. Resta-me ouvi-lo e relaxar, sentindo o poder da sua música. Parabéns ao génio. Quero respirar...
Tell@
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